04/11/2017

A arte de Jacob Emory

Histórias de fantasmas? Nah, não temos nada do tipo por aqui. Bem, nós TEMOS a história de Jacob, mas isso é o mais perto de uma história de terror que nós temos.

... Você realmente quer saber?... Bem, eu não deveria te contar, mas tudo bem, apenas não me interrompa. Eu não tenho paciência para isso.

Como descrever Jacob Emory... Bem, eu acho que se pode dizer que ele era o tipo de pessoa que nunca se notaria. Não quero dizer que ele era uma má pessoa, em qualquer sentido - muitas pessoas nessa cidade pensavam que ele fosse a melhor pessoa para um serviço aleatório em todo o estado - mas ele não era bom o bastante em nada. Ele era a prova viva da frase "faz de tudo um pouco, mas nada direito." Muito disso foi por culpa de sua falta de vontade.

Ele se meteu em praticamente tuo que a cidade poderia oferecer a ele: carros, operação de rádio, genenciamento de lojas, tudo que fosse possível, mas ele nunca ficava em coisa alguma. Seus amigos e colegas de trabalho o procuraram algumas vezes, mas todo mundo recebeu a mesma resposta: "Simplesmente não foi o bastante." Não preciso dizer que os poucos amigos que ele tinha ou eram muito pacientes ou não falavam sobre o assunto.

Foi inevitável, então, que Jacob decidisse viajar. Não me lembro aonde ele foi, mas acho que Gertrude sabia antes de morrer - você vai ter que procurar alguma outra pessoa se tiver curiosidade. De toda forma, ninguém tentou pará-lo. Todos pensaram que uma pequena viagem iria lhe dar um pouco de ambição, ou pelo menos alimentá-la até que não fosse mais um problema. Diabos, nós chegamos mesmo a lhe dar uma festa de despedida, o que eu acho que foi muito legal de todo mundo.

Então, ele se foi por... seis, sete anos? Não lembro. Você vai precisar procurar outra pessoa para saber, também. Enfim, ele voltou eventualmente, e havia mudado. Estava amigável, energético, todo sorrisos o tempo todo, e logo descobrimos por que. Ele nos mostrou um souvenir que ele trouxe da viagem - um bastão preto, do tamanho de um lápis, mas na textura de giz. Nós nos perguntamos por que diabos algo tão simples poderia causar tamanha mudança, até que ele nos deu uma demonstração. Ele pegou um pedaço de papel, e com esse bastão - Deus, deve haver um termo melhor pra isso - com esse bastão ele... desenhou um círculo.

O desenho caiu, e descansou na parte inferior do papel, como uma pedra. Não saiu do papel, mas agia nele, como uma espécie de projetor em uma tela.

Filho, eu sei o quão maluco isso soa, e se você quer bancar o cético, então pode deixar um velho homem sozinho com sua loucura, mas eu sei o que eu vi, mesmo que todos estejam tentando silenciar o que há para ser dito, e aquela pedra que ele desenhou caiu. Jake chegou a passar o papel por todas as mãos, e conforme ele era passado, a pedra rolou pela folha conforme ela era inclinada. Nenhum de nós sabia o que dizer - diabos, o que poderia ser dito? - mas ele continuou desenhando demonstração após demonstração para nós, bonecos palito em desfiles e peças fazendo de tudo, desde lutando até formando perfeitas pirâmides "humanas", e todos achamos isso incrível.

Isso foi tudo que Jacob precisou - ele anunciou que planejava fazer shows para pagar o aluguel e a comida, e nesses shows ele desenharia o que a platéria quisesse. ISSO nós falamos sobre por algum tempo, e ele eventualmente nos convenceu que seria seguro, seus desenhos totalmente éticos, a prática totalmente lucrativa e única, e a atenção nunca sairia das fronteiras da cidade.

Pobre Jacob. Se não fosse por meu deslumbramento, eu teria lido os sinais ali mesmo, e salvado aquele pobre filho da puta quebrando o bastão terrível ao meio. Mas eu era jovem, nós todos éramos, e nós não vimos problema em encorajá-lo com o que vimos como uma incrível experiência para compartilhar com todos. Enfim, ele não tinha conexões com rádio e TV, você sabe, e a internet não existiria por pelo menos outra década, então ele fez o que as pessoas em um orçamento apertado fazem - ele fez propagandas de seu show em folhetos.

Folhetos podem não significar muito para vocês da cidade grande, mas em uma pequena cidade, eles ganham atenção de tempos em tempos, e ainda por cima, Jacob conseguiu se destacar colocando pequenos bonecos palitos pulando e tudo mais para atrair a atenção das pessoas. Seu primeiro show deve ter conseguido aproximadamente sessenta pessoas, talvez mais que isso.

E seus shows eram fantásticos. Alguém pediria uma cena de uma peça ou uma cena de comédia, e a mão de Jake voaria por uma parede branca como um pássaro. Ele estava se contendo quando fez aquela pedra, pode ter certeza. Suas ilustrações eram perfeitas, e ele podia fazer uma figura humana incrível em minutos. Na verdade, não me lembro de qualquer ilustração dele levando mais que dez minutos para ficar pronta.

Elas eram cenas bem feitas, também - você não via apenas um cavaleiro contra o castelo, Jake também desenhava o interior do castelo, como um bolo de casamento cortado ao meio, assim você via o cavaleiro escalar as paredes, lutar através de partes da masmorra, lutar para sair do castelo com a princesa, e saltar para fora do castelo e caindo em seu cavalo em completo silêncio. Não de forma realística, não, mas era parte do charme - nenhum de nós esperava algo totalmente real. Quando uma cena ou rascunho era finalizado, ou os personagens saíam da parede ou ele pintava a parede com tinta branca. Isso era bom, de certa forma - isso dava um limite de tempo ao show, então quando ele terminava todas as 4 paredes, todo mundo sabia que o show havia terminado até que a tinta secasse.

Jake, por outro lado, estava mudando para pior. Eu mencionei que ao retornar, ele estava energético. Bem, essa energia, essa vitalidade ou fervor ou seja lá como você queira chamar, ela nunca o deixou. Não por um instante. Bem longe disso, parecia haver crescido, e ele adorava isso mais do que o normal. Seus olhos cresceram, ele dormia cada vez menos, suas opniões eram mais radicais e animadas, e mesmo que ele nunca tenha forçado, ele estava começando a fazer com que as pessoas ficassem nervosas em sua companhia.

Um mês ou dois passaram, e a audiência de Jake cresceu como fogo. Praticamente toda cidade pagou para ver a arte dele em ação, e ele teve que alugar ambientes cada vez maiores para que todos se acomodassem. Agora ele não parava após uma cena - ele movia diretamente para a próxima, usando o próximo espaço vazio na parede, às vezes causando o efeito de fazer com que as cenas se misturassem, o que a platéia adorava. Os temas ficaram mais selvagens e imorais, os monstros mais bizarros e criativos, os lutadores usavam armas mais impossíveis, tudo para manter o interesse da platéia. Jake ficou mais interesseiro, e todos nós concluímos que isso era por causa do dinheiro. Ele se tornou um bêbado e um Don Juan (e nenhum desses dois o fez perder a vitalidade, por sinal.) Algumas dessas mulheres dizem ter acordado no meio da noite para vê-lo desenhando com aquele bastão em um bloco de esboço, um sorriso enorme em sua face, e muito embora muitas delas tenham dito que achavam que ele estava desenhando-as nuas, há rumores de que uma ou duas delas conseguiram olhar para o caderno. Essas poucas anônimas dizem que esses desenhos não eram nus artísticos, mas nenhuma delas, quem quer que sejam, jamais disseram o que havia ali. Não tente procurar os cadernos ou folhetos, no entanto, todos eles sumiram. Estou saindo do assunto: o importante é, ele estava bebendo muito, e isso é importante, porque foi a bebida que arruinou tudo eventualemente.

Na noite de uma de suas performances, quando ele apareceu na frente da platéia animada, foi imediatamente óbvio que ele estava completamente bêbado. Eu estava na fila da frente, e eu podia sentir o cheiro de bourbon há dez pés de distância. O show começou, ele fez um monte de desenhos e paisagens que a platéia sugeria, até que no fim, alguém disse para que ele desenhasse a si mesmo. Todo mundo adorou a idéia, acho que eles queriam saber o que suas criações pensavam dele, e ele eventualmente concordou.

Não muito depois que Jake terminou de conectar as duas linhas finais de seu casaco, todos os personagens, ao longo da grande, expansiva parede, pararam e olharam para a ilustração. Amantes pararam de se beijar, palhaços pararam de rir, robôs pararam de lutar contra piratas, todos pararam e encararam o Jacob desenhado. A platéia se calou imediatamente - eu lembro da face de Jake naquele momento, completamente pálida, cheia da terrível compreensão de seu erro, e procurando desesperadamente as latas de tinta branca que ele esqueceu de colocar no palco antes do show. Todos os outros? Eles encararam o falso Jacob.

Esse Jacob colocou a mão no bolso da jaqueta, puxou um bastão preto próprio, e conforme todos olhávamos, desenhou uma porta. Ele empurrou-a, e a porta se abriu, permitindo que ele andasse pelo chão do auditório.

O resto foi um pandemônio infernal. Pessoas gritavam e corriam para as saídas enquanto os personagens de Jacob, tanto os que estavam na parede no momento como os que haviam saído antes de serem cobertos, correram por suas próprias saídas, jogando tortas, soltando lasers, cuspindo fogo e o impossível. Eu estava perto da saída, e dei uma última olhada para trás. O que eu vi vai me aterrorizar para sempre.

Jacob Emory estava sendo arrastado por suas criações para dentro da porta que sua cópia fizera, enquanto gritava e se debatia.

O auditório queimou, obviamente, mas eu não faço idéia de quantos personagens escaparam, o que aconteceu ao falso Emory, ou quantas pessoas morreram. O fogo trouxe o corpo de bombeiros das cidades num raio de 100 milhas - eles, por sua vez, trouxeram a polícia, que trouxe o governo, que silenciou tudo. Eles confiscaram os folhetos e toda arte que Jake fizera, e fez com que jurássemos silêncio, ou então lidaríamos com prisão perpétua. O fogo foi culpado por um cigarro no lixo durante um jogo de basquete, e nós eventualmente voltamos para nossas vidas. Jacob foi basicamente apagado da história.

Em retrospecto, eu entendo tudo. Jacob não estava criando ilustrações. Ilustrações não se movem, muito menos agem ou atacam - elas são apenas imagens que as pessoas vêem, sombras feitas para parecer com o produto real. Jacob estava criando vida - coisas reais em uma dimensão alternativa, usando poderes que nunca deveriam cair em mãos humanas. Ele ficou bêbado com seu poder. Sua punição foi provavelmente merecida.

Incidentalmente, o governo cometeu dois erros. Eles fizeram um bom trabalho em silenciar a todos, mas ainda há provas. As ruínas ainda estão lá, você sabe. As ruínas do auditório. Ouvi dizer que vão começar a reconstruir em breve, o que apagará quaisquer evidências que alguém ainda possa ver, mas eu fui lá uma vez, vários anos após o fogo - só uma vez. Entre as ruínas, coberta por cinzas, eu vi algo. Eu olhei mais de perto. Era a mão de Jacob Emory na parede. Exatamente como havia sido três anos antes, mas estava constantemente agitada, como se o corpo em que estava supostamente grudada ainda queimasse em chamas.

Esse foi o erro número um. O número dois foram as criações.

Como te disse, não sei quantas escaparam, nem quantas foram encontradas e capturadas pelos agentes do governo, mas vou te dizer isso - aqueles prados com grama alta nos limites da cidade? Não vá até eles. Nunca. Você me perguntou sobre essas figuras brancas que você viu a noite, não é?

Essa cidade não tem histórias de fantasmas.


17 comentários:

  1. Santos caralhos alados, que incrivel. 10/10

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  2. Cada vez me apaixono mais por essas histórias. É cada uma melhor que a outra.

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  3. Tem umas repetições de palavras que incomodam, mas a história eh fantástica. Sensacional!

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Quem era Jacob e quem era Jake???

    Esse conto bugou demais as minhas ideias...

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    1. Jake é apelido de Jacob, é a mesma pessoa...

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  6. Arrepiei, mas eu já tinha lido essa creepy, se não me engano aqui mesmo

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  7. Muito boa, estas criaturas poderiam muito bem ser scp's

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  8. Perfeita, parece até uma dessas creepies clássicas mais antigas :D

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  9. Sabia que já tinha lido ela aqui heueheuheuheuh pensei que tava louca!

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