22/09/2017

INFESTATIO


Parte - I
Parte - II
Parte - III
Parte - IV & V

PARTE - VI









Não era exclusivamente na presença de mortais ou formas de vida, espírito e compreensão de níveis inferiores que Kaba parecia se mover de maneira pausada e dramática.

Era algo dela.

Não a mulher propriamente dita, mas sim a densa pressão de sua espiritualidade, era preciso sentir isso para que de maneira bem vaga pudesse tentar vir a compreender como sua presença "bagunçava" a dimensão em sua própria volta.

- Caput. - Chamou quase sem mover os delicados lábios, como uma experiente ventríloqua.
Em uma sala gigantesca e inteiramente branca, na posse de mobília não chamativa, exceto o assento e um amontoado que lembrava um "descanso de pés".

Deixou seu corpo recostar em uma cadeira de couro confortável, em uma mão um grosso e robusto copo de Whisky que exalava um delicioso cheiro de malte, já a outra mão foi baixada deixando a mesma estendida com o cotovelo acomodado em um dos braços da cadeira.

Livre dos sapatos de salto alto acomodou ambos os pés no "descanso" logo abaixo dela.
Um borrão principalmente preto mas parte branco e parte marrom com dois pontos fixos e vermelhos atravessou o cômodo, do chão a parede, da parede ao teto, do teto com o focinho postado logo abaixo da palma acolhedora.

Era apenas um risco, silencioso e incompreensivelmente veloz ainda mais para uma criatura que parecia um animal de colo, um gato, cachorro de pequeno porte e não uma Ratazana pesando mais de 7kg.

Kaba acariciava o topo de sua cabeça, Caput mantinha seus apertados e pequenos olhos fechados, as bochechas se retorciam fazendo com que seus bigodes dançassem, suas não tão pequenas mãozinhas se esfregavam no mesmo ritmo da mão maior acima dele.

...- Finalmente. - Enquanto encarava as chamas da lareira consumir a saudável madeira.

- O que "dá" poder aos Deuses, meu amor? A própria sacralidade por ela mesma, a consciência elevada que ultrapassa a tênue linha do aqui e do além, o nativo e incontornável sentimento de superioridade impregnado na própria essência do meu ser e estar?

- Chiiiichiii. - Respondeu Caput.

Ela gargalhou brevemente.

- Concordo que o controle das massas, onde tudo é feito "Em nome de Deus", arquitetando e condicionando o comportamento , a obrigação e recompensa no temor de nossa própria palavra juntamente com a adoração de símbolos, estatuetas, locais e nas preces em si é gratificante e mero capricho, porém não fortalecedor.

- O que realmente dá forças a Deusa das Pragas, Deusa dos Ratos, Mãe da Pestilência, são seus seguidores, seus fiéis, Os Propagadores da Palavra da Propagadora do Fim, a intenção de Kaba!
Seus olhos cor de mel perderam de total a tonalidade, depois a vida e por fim se tornaram ainda mais flamejantes, vivos e quente que as próprias chamas em sua frente.

Caput desceu da cadeira e manteve uma postura bípede com certa distância de sua Mestra que após terminar o copo em delicadas goladas envolveu o objeto em suas mãos e o transformou em areia  fazendo com que os finos filetes corressem da palma de suas mãos pelos seus punhos vagarosamente como um relógio.

Em sua poderosa e antiga mente aquela ampulheta marcava o tempo(já esgotado) da humanidade no topo da pirâmide predatória.

Sem o ínfimo esforço utilizou a mão esquerda para suspender o "Descanso de pés"que pesava exatos 77 quilos e 502 gramas a 17 centímetros do chão. Com a mão direita fez um símbolo que lembrava uma "figa" só que com três dedos, deixando o mindinho e o dedão abertos. Rasgou o saco e retirou o conteúdo do seu interior. Um homem amordaçado suplicava por sua vida através do olhar desesperado e incrédulo, com a mesma mão que proveu breve liberdade ao individuo o condenou logo em seguida em um único movimento totalmente cirúrgico de cima a baixo rasgou a pobre vítima da garganta ao púbis. O corte foi tão repentino que talvez a própria estrutura fisiológica do ser tenha tido dificuldade de entender ao que fora submetida.

Caput apenas acompanhava a cena, parecia um animal empalhado.

Com demora mas sem decepcionar o jato viscoso e rubro de sangue jorrou com vontade, entrando em contato com sua amendoada pele, lambiscou os lábios sujos retirou de seu busto prendendo-o entre os dedos com muita força seu colar de ouro, embebeu em sangue fresco, deixou o sacrifício agonizante atingir o imaculado piso branco, com as duas mãos trouxe para perto de seu rosto o artefato gotejando recente sofrimento e com uma voz que nem de longe lembrava a dela, era feminina e masculina, angelical e demoníaca, poderosa, imperativa, ameaçadora, atordoadora e agressiva. Vociferou:

- IN - FES - TA - TIO !

Um leve tremor tomou início.

O colar começou a mudar de forma, se alongou como uma bengala sob a medida da usuária, a parte inferior deu lugar a uma lâmina curva exatamente como uma foice, a parte do "apoio" tornou-se uma esfera maciça.

Um preocupante terremoto ganhava corpo.

A circunferência se encolheu dando forma a um anel grosso, afinou uma primeira vez postando um círculo quase completo a esquerda de sua própria existência e fundido-se ao todo.

Uma enorme comoção iniciava-se na superfície.

Ficou fino outra vez ao liberar mais uma semiesfera voltada para cima.

E os céus foram cobertos por um enxame de criaturas aladas.

 E por fim um terceiro quase formado anel tomou o lado direito do cetro.

A eletricidade cessou, deixando todos na escuridão.

Assim que Caput terminou sua refeição, tratou de desaparecer.

Milhares e milhares de enormes e mutados Ratos assolavam a cidade, os bueiros transbordavam, de cada buraco surgia cinco aranhas, dez baratas e trinta ratos. Nas ruas não havia onde pisar, o chão era pura peste. Ainda que tal pessoa houvesse presenciado a pior faceta do mais desprezível ser humano não seria capaz de mensurar tanto ódio, tanta fúria e bestialidade quanto os Ratos de Kaba traziam, devoravam pessoas vivas por inteira, brincavam com a presa, atacavam onde mais doía, faziam com que as vítimas sofressem até o corpo entrar em colapso e por fim desligar.

Muitos caíram resistindo, com rastelo, bomba, fogo, armas entre outras coisas. Não só pelo número desanimadoramente maior das pestes em relação aos homens, mas pela força brutal, capacidade de raciocínio e elemento surpresa.

Sem contar que lutavam com um inimigo débil, desnutrido e desanimado. Tornava a própria fortaleza do cidadão (seu lar) um campo de batalha desconhecido, suprimindo qualquer tipo de vantagem.
Os roedores eram a força destrutiva arrancando pedaços, visando tendões ou qualquer parte do corpo que pudessem alcançar.

Os aracnídeos envenenavam, seja paralisando a vítima, desabilitando o diafragma ou causando dor excruciante incapacitando totalmente o picado de exercer qualquer tipo de resistência.
As baratas eram oportunistas, pousavam nos ombros para adentrar o canal do ouvido aproveitando da elasticidade da cartilagem e destruíam o inimigo de dentro para fora.

As opções eram curtas, tirar a própria vida com veneno para ratos (Fornecido pela idônea Infestatio).
Se entregar a massa destruidora.

Morrer levando o máximo de malditos roedores possível.

Na noite de 27 de Setembro, com a primeira investida de Kaba, se salvaram pessoas em situações bem específicas.  

Gilbert, fora tirar dinheiro em um caixa eletrônico e quando percebeu toda merda acontecendo se travou na porta giratória do banco que ia do teto ao solo, fora salvo mesmo pelo fato da porta ser espelhada,  não revelando então que havia alguém ali dentro.

Mia, que trabalhava para um pseudo rockstar da região  sempre ficava até mais tarde no estúdio ( com isolamento acústico) afinando instrumentos e tomando notas para o dia seguinte, nem ao menos sabia o que estava acontecendo.

Penélope, que fora salva por sua personalidade rasa, usou tantas drogas e bebeu tanto que pegou no sono dentro da câmara de bronzeamento artificial, sorte a dela que a energia fora cortada nesse meio tempo.

A lua era quase vermelha, refletindo o massacre que ocorria sob ela.

As vezes Marta tinha uma postura irritantemente irônica-debochada, mas não era proposital, talvez fosse parte da personalidade dela ou só um reflexo de ser a pessoa mais inteligente entre nós.

- Então vocês são um grupo de Contramedida a Infestatio, correto? - A pessoa que estava prontificada a esclarecer a situação era a mulher de franja que nos recepcionou assim que acordamos tinha o apelido de Marreta, ouvi de outras pessoas, ela ainda não havia se apresentado.

- Uhum. - Assentiu.

- Estão se protegendo, estão preparados para combater, estão seguindo os passos da Kaba...

- Sim, qual é a sua dúvida? - Perguntou sem esboçar reação.

- Algo me incomoda mas não sei explicar...

- Tipo achar que não estamos do mesmo lado? Se fossemos da Infestatio já teríamos matado todos vocês, não é? - Agora queria provocar Marta.

- Sim, teriam nos matado caso fosse conveniente, poderia nos poupar de primeiro momento apenas para saber o que descobrimos o quão longe fomos. - Marta não estava para brincadeiras.

Marreta tirou a franja de cima dos olhos e foi um pouco mais além: - Então diga logo suas deduções, sendo ou não da Infestatio, vocês estão em nossas mãos, vocês estão impotentes "grande gênio". - Fez aspas no ar com os dedos indicadores de cada mão para provocar ainda mais.

Marta manteve a calma: - Sabemos das ferramentas que eles possuem, como uma organização que se diz " Frente" ao apocalipse consegue sobreviver sem ser detectada por ela, sendo que nós achamos vocês em pouquíssimos clicks na internet? Muito fácil chegar até vocês...

Sara acenou com a cabeça em direção a amiga em gesto de aprovação.

- HAHAHAHAHAHA. - Vocês não chegaram até nós, querida. Nós chegamos até vocês. - Nesse momento, Marreta apontou em minha direção, minha melhor amiga entendeu o gesto como uma ameaça.

Marta baixou o tronco e com os braços abertos correu em direção a Marreta, para derrubá-la.
Uma violenta troca de socos começou, ambas sairiam prejudicadas.

Marta era atingida mas não parava de avançar, Marreta aguentava chute após chute sem recuar. Nossa companheira acertou um gancho em cheio na adversária, que inexplicavelmente continuou consciente.

Frank cutucou Cruz com o cotovelo amistosamente e comentou: - E você querendo pagar pay-per-view, hã?. - Arqueando as sobrancelhas.

Eu, Sara, Frank e Cruz apenas observávamos a atitude de Marta, parte de nós queria intervir, trocamos olhares para buscar "encorajamento" e tomar uma atitude, mas sem ao menos dizer uma única palavra, achamos melhor deixar o barco ser tocado. Nosso entrosamento era ótimo.
Marta havia jogado a mulher no chão, que encontrava-se de joelhos mas apesar de abatida não desistia da luta.

Por entre os dentes sujos de sangue perguntou : - Sabe porque me chamam de Marreta?

Ela continuou  parada, esperando a resposta, deu apenas com a mão sinalizando "vamos logo".

- Prego que se destaca, leva marretada. Sua face ficou distorcida, agarrou com as duas mãos ambas orelhas de Marta, mirando o queixo da adversária desferiu uma cabeçada poderosa.

Marta estava acabada no chão.

Estendeu a mão pra ela e disse: - Gostei muito de você, muito mesmo. Será uma ótima adição ao grupo! - Respondendo sua pergunta, nós não monitoramos o blog ou fórum que tem usuários redirecionados as nossas páginas. Nós monitoramos os sites que redirecionam as essas opções específicas e através daí entramos no dispositivo da pessoa. "Entramos" é maneira de dizer, não entendo nada dessas merdas...

Sara então quis reafirmar: - Então antes de chegarmos nos resultados finais, de fóruns e demais informações sobre a Contritio somos monitorados pelos passos que tomamos?

- Nesse caso foi pela Veronica, assim que os computadores apontaram, conseguimos abrir o áudio do microfone no laptop que estava acessando a internet através do endereço dela. E pelos relatos e desespero, concluímos que são apenas vítimas. Realmente, com simples clicks, nos achar na internet seria algo realmente estúpido....

Foi interrompida por um alarme estridente e juntamente com uma voz que saía do walk-talk :

"Marreta, começou. Traga todos eles para cima, urgente".
- Vocês ouviram, nós temos um trabalho a fazer.




8 comentários:

  1. Gostava da série runners(eu n sei digitar o nome dessa série direito)

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    1. Também sinto falta da série Runners, até enviei emails perguntando a respeito mas não tive respostas =/~

      Alguém sabe dar alguma informação?

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  2. Oi pessoal, se já não estiver traduzida, algum de vocês poderia traduzir a creepy 'The New Fish'? Me disseram que é bem interessante.

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  3. Há série está ótima , mais essa parte ficou muito explícita , chata , cansativa de se ler

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. o símbolo que se forma quando a deusa invoca o apocalipse é o símbolo do perigo biológico, 3 anéis em volta de um quarto anel! amei a referência

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