01/09/2017

INFESTATIO

Boa noite, perdão pela demora. Segue então, a terça parte da Infestatio.



PARTE - III



O relógio apontava o horário da refeição de grande parte da fábrica e Veronica ainda não tinha chego para dar início ao seu turno, Marta pensava que devia estar de ressaca já que sua amiga nem por motivo de doença havia faltado ao compromisso uma única vez sequer.

Segurando sua bandeja, ergueu a cabeça e pôde ver a cabeça(baixa) cinzenta e raspada de Frank, Cruz usando o smartphone e Sara um tanto quanto inquieta mastigando um palito de dente no canto da boca, batia o pé repetidamente no chão e desenhava círculos imaginários no plástico que forrava a mesa.  Após as saudações, Sara foi se atropelando: - Nós precisamos adiantar aquela reunião para hoje, de verdade, é o tipo de coisa que nos deixa em desvantagem a cada precioso segundo que passa, o Cruz tem um primo na polícia o Frank conhece...- Foi interrompida pela colega.

- Aqui não.-Em severo tom de advertência.

Sara fez menção de voltar a falar e foi advertida com um simples olhar de Frank.

Cruz perguntou: - Onde está a Veronica? Todos olharam ao mesmo tempo para Marta que apenas balançou a cabeça negativamente.

Marta daria carona a Cruz e Frank após o expediente, esperaria por eles, buscaria Sara em casa e iriam até a colega que faltava. Voltaram aos seus afazeres.

Pouco tempo depois de estarem na produção ambos os homens foram chamados para uma nova pesagem e atualização de "dados médicos". Sem questionar, mas já sabendo que algo estranho acontecia foram ao local determinado pela voz que vinha das gigantescas caixas de som.

Cruz pensou na hora: "Santa Maria!"

Frank pensou na hora: "Se soubesse, teria vindo trabalhar bêbado..."

Marta ficava em um local isolado, a substância que manipulava não podia ser exposta ao calor ou grandes vibrações, por isso as paredes eram acolchoadas, o informe era que a um simples movimento brusco nas pinças metálicas poderia alterar o composto químico dentro da ampola e tornar o fluído em algo inutilizável, tanto é que rádio, celulares e conversas exaltadas eram estritamente proibidas.

Ouviu um leve rugido mecânico, achou que havia feito algo de errado pois nunca ouvira aquilo antes. Ao se locomover pela sala, de canto de olho percebeu que a câmera que era postada atrás dela seguia seus movimentos incessantemente, tratou aquilo como natural sem transparecer que estava ciente ou incomodada com aquilo.

Marta pensou na hora: "Hmmm... fodeu mesmo..."

Sara antes de entrar em sua sala recebeu a notificação da visita técnica da Thitronic, com o serviço de manutenção no intuito de rodar uma completa análise em todos os servidores e sistemas para prevenção de perda/corrupção de dados.

Sara pensou na hora: "É assim que saberão o que eu sei. Não, é assim que irão saber o que eu quero descobrir. Não, são as duas coisas"- E de pronto buscou em seu bolso outro palito de dentes para ficar mordendo, como alívio de sua tensão.

 Entendendo no que aquilo poderia acarretar e sabendo exatamente ao que seria submetida, desviou seu caminho para o banheiro feminino, na companhia da bolsa que protegia seu laptop. Escolheu a cabine que ficava bem embaixo da janela espelhada e abriu o máximo que conseguia. Caso houvesse uma câmera no teto, por conta do reflexo seria incapaz de capturar as imagens dela, sentou na privada com o aparato no colo. Ficou feliz por ter gasto um extra pela tecnologia que envolvia as teclas, garantindo absoluto silêncio.

A diferença entre Sara e seu novo grupo de colegas era que de maneira aplicada, em exercício de sua função, não havia ninguém que entendesse tanto, fosse tão especialista, tivesse tanto conhecimento e pleno domínio como ela. E por hora, essa era a única vantagem que todos eles possuíam.

Com eficácia conseguiu mascarar todos os "passos virtuais" dela, Ninguém saberia o que havia descoberto ( e estava ansiosa para revelar) , não havia pista alguma que pudesse ter deixado para trás.

Recebeu um SMS de Cruz naquele momento.

Não era uma estrategista, mas concluiu que se estavam a investigando é porque de algo sabiam e algo esperavam encontrar... Pois sabiam que algo haveria... Então obrigatoriamente teria que deixar "algo errado" para trás. Estar totalmente limpa seria mais suspeito que cometer uma pequena infração. E soube exatamente o que deveria fazer.

Em nenhum momento na sua curta existência de vinte e três anos chegou tão perto de ter o rosto modelado por um sorriso tão maquiavélico, tal engenhosidade não era de seu feitio, a situação da qual se encontrava despertou algo novo em seu ser.  

A vontade de ser parte do jogo.

Pela mensagem de Cruz, soube que provavelmente todos eles estariam sendo vigiados, a solução momentânea que encontrou da maneira que todos eles pudessem ser amarrados era a seguinte: Sara deixaria transparecer que usou de sua posição para obter informações particulares de Frank (como se demonstrasse interesse em se envolver com o homem) esse que era amigo de Cruz, ambos vizinhos de Marta que com toda certeza chamaria sua melhor amiga para comparecer a uma confraternização, no caso Veronica. Marta conhecia Dra.Michelle, irmã de Sara, dessa maneira fora estabelecido o contato inicial, no intuito de "arranjar" um encontro entre Sara e Frank. Era perfeito..
.
Saiu do toilette um pouco descabelada e carregando a mão esquerda sob o ventre, como quem gostaria de passar a mensagem de que estava com problemas intestinais...

Sentou-se em sua mesa, retirou o laptop e assim que acionou o botão power recebeu a sugestão de "emprestar" o eletrônico para o técnico, e o fez sem oferecer resistência.

Enquanto esperava a inspeção, impedida de continuar a trabalhar encarava o vasto corredor que tinha o ponto de partida em sua própria porta.

Ao final dele uma figura esguia apareceu, vestido de seda azul, cabelos negros que pareciam ter mais vida que a própria essência da palavra em si. Era como se o tempo estivesse desacelerando e fosse cada vez mais difícil de respirar, como se o ar de repente havia ganhado peso, ainda que os olhares não houvessem se encontrado, era como se os olhos dela, os olhos de Kaba tivessem a capacidade de penetrar o seu mais íntimo pensamento obscuro, como se suas particularidades e segredos ganhassem uma forma física e se revelassem a um público inteiramente desconhecido de maneira que pudessem apalpá-los e que pudessem fazer o que bem entendessem. O olhar de Kaba, como duas opalas em pleno ardor das chamas desconstruía todas as defesas internas de um ser humano, era como se estivesse na presença de algo realmente divino, sacro, antigo e único.

Com toda pressão que sua presença exercia, com toda severidade que seus traços clamavam, com toda beleza opressiva de sua pele amendoada e flavescente ela se postou em uma cadeira de frente a Sara e com uma voz que transmitia uma hipnotizante calma, conforto e leve euforia seus finos lábios desenharam a sentença: - Precisamos conversar.



Veronica pensou na hora: " Que coisa asquerosa!"

No momento da filmagem, sua residência estava completamente escura, dificultando em muito a captura da movimentação, mas partindo do princípio que aquilo ali era sério, nem de longe um show de marionetes, ainda que distorcida, a informação contida ali era suficiente, mais que suficiente por assim dizer...

Eu passei as horas em claro, fingindo estar dormindo, tinha uma raquete elétrica comigo, embaixo do edredom, olhava fixamente para a entrada da cozinha, esperando toda a movimentação começar... Eu não tossi, não espirrei, não bocejei, não realizei movimentos bruscos, não bufei, apenas aguardei de maneira estática.

Ficava passando, repassando, reavaliando em minha mente as imagens que eu vi em minha própria casa e me recusava a acreditar. Sabia que passando todas essas horas em claro resultaria em minha primeira abstenção ao labor, mas valeria! Com certeza! Ligaria de tarde dizendo que estava mais uma vez sentindo enjoo matinal, provavelmente gostariam da informação achando que estivesse grávida.

Nada aconteceu.

Adormeci profundamente.

Acordei com o som de buzinas, pareciam estar dentro da minha cabeça.
Teria de receber os convidados...

A reunião que aconteceria entre nós cinco nesse dia seria "absurdamente absurda" Psiquiatras se matariam para ter acesso ao nosso encontro se o mesmo fosse registrado seja em papel, áudio, vídeo ou até mesmo pela testemunho de alguém presente. Se a minha vida fosse um seriado de televisão ou um livro bem clichê, com certeza o episódio/capítulo ganharia um nome espalhafatoso entre "A Revelação", "A Exposição", "A Verdade" ou qualquer merda do tipo.

Cruz apresentaria documentos confidenciais da polícia.

Frank apresentaria documentos de planos de logística de uma terceirizada da Infestatio.

Marta apresentaria plantas de estruturas subterrâneas ameaçadoras.

Eu apresentaria o vídeo da futura ameaça que enfrentaremos.

Sara apresentaria uma planilha de custos e planejamento.

Naquele momento ficou claro, o nosso papel foi descobrir, quanto ao papel do resto da humanidade, era apresentar medo e submissão...

...Através do diálogo, talvez poderíamos virar o jogo.

Apenas talvez.

































9 comentários:

  1. Essa série tá muito boa, cada capítulo fico mais curioso e montando mais teorias, da até pra fazer um filme. quero uns 20% dos lucros pela ideia.

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  2. rapaz.... eu fico cada vez mais ansiosa pela próxima parte, muito bem escrita e a história prende demais.

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  3. Obrigado!

    Annatak, quais foram as dúvidas?

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  4. Cara,a série eh ótima mesmo mas algumas partes não dá pra saber se ta em 1° ou 3° pessoa e isso confunde. Mas em geral a série eh ótima

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  5. me confundi um pouco em algumas partes, ficou meio confuso para mim mas não vejo a hora de sair a próxima parte aaaaaaaaaa

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  6. Muito boa
    Que demora pra postar li só no sábado

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  7. Tô adorando a história. Tenho uma teoria na cabeça mais confusa que a própria creepy, haha.

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  8. Ai meu deus, que série ótima!
    Só fiquei um pouco confusa em alguns momentos, mas to adorando!

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