16/09/2017

INFESTATIO


Para quem não leu ainda, segue os links :


PARTE - IV & V




Peço desculpas por ter falhado na última semana, para compensar venho lhes trazer duas partes de uma única vez.

Aproveitem.

Cruz espalhou sobre a mesa que montamos diversos boletins de ocorrência, cartazes entre outros registros de pessoas desaparecidas que de maneira alguma vieram a público qualquer tipo de informação, como se a polícia (surpreendentemente) fosse preguiçosa e não estivesse afim de fazer o seu trabalho (quem imaginaria tal situação?). Mas não era o caso, simplesmente não era prioridade de nenhuma maneira, foram instruídos a não investir nesse tipo de caso e era alarmante a quantidade de gente que não retornava aos seus lares. Dentre 70,80 faces eu mesma cheguei a reconhecer umas 9, ainda que não soubesse o nome de quatro.

Frank nos apresentou um plano de logística de uma terceirizada da Infestatio, a Contaminio, e a distribuição de mercadoria não fazia sentido algum, era como se andassem em círculos e círculos sem ter realmente um destino fixo, excluindo os grandes mercados que estocavam o veneno. Apresentava ser algo bem confuso tanto é que  se fosse para colocar no lápis a quantidade produzida era IMPOSSÍVEL de se equiparar ao que estava disponível no mercado... Digamos que para cada setecentos frascos comprados por uma grande rede de mercados produzíamos simplesmente TRÊS MIL. A conta, a distribuição, a mão-de-obra, a logística, a necessidade, não batia. Assim como produção x lucro, então qual era o propósito?

Para corroborar com os fatos, Sara, através de planilhas e cálculos do setor de estratégia mostrava que o déficit era enorme, nos últimos dezessete meses a Infestatio não lucrou um único centavo, muito pelo contrário. Apenas aumentava a produção de um produto que saía mas não estava disponível no mercado, gastava-se sem retorno... Os dados não estavam incorretos, eram sóbrios e verdadeiros. O que mais chamava a atenção era o custo em instalações que não eram usadas, não eram futuras fábricas, era algo que já exigia um certo tipo de manutenção e parecia operante mas sem localização exata, tudo muito nebuloso.

Marta sorriu e mostrou sua contribuição, um complexo e gigante mapa apontava estruturas recentemente construídas nos esgotos da cidade, aparentemente fazia alguns anos que as operações haviam começado, pouco antes da própria Companhia se instalar em nossa cidade.  Era bem feito, bem planejado, de longe bem melhor que o plano diretor de onde morávamos, era invejável, uma verdadeira fortaleza subterrânea. Parecia de certa maneira ter sido construída tendo um ponto central como base, como se quisessem proteger algo que se encontrasse nessa marcação em específico, como uma câmara impenetrável.

Nos olhávamos como se alguém entre nós possuísse qualquer tipo de opinião, especulação ou algo útil que pudesse ser trazido para a mesa de debate... Nada ocorria. 

Foi então que conectei o laptop na televisão e pedi que todos prestassem atenção.

O vídeo era curto, pouco iluminado, mas apesar do mistério que o envolvia falava por si próprio.

Um rato na verdade uma ratazana, surgiu do nada. Ficou bípede e aguardou uns 45 segundos até que uma outra sombra, bem mais baixa e contida se aproximou do ser postando-se ao seu lado direito, ergueu a parte frontal do corpo, talvez quatro de suas oito pernas, realmente parecia ser uma aranha.

Algo parecido com uma barata, com o tamanho de um pombo que residia em uma praça populada de idosos, abriu suas enormes asas e ficou ao lado esquerdo do Rato. 

Em poucos segundos a casa foi infestada, por criaturas rastejantes, vermes e asquerosas. De maneira coordenada, num consciente coletivo escancararam as portas dos armários, geladeira e reserva de remédios de Veronica (Sim os remédios também) e trabalharam operariamente para carregar suprimentos para fora de casa, apenas aqueles que iriam passar sem problemas através de buracos e vãos abertos em sua residência (especificamente para isso). 
Essa era a explicação plausível do sumiço dos alimentos nas casas de tantas famílias, estava ali, por mais improvável e ridículo que parecesse, era isso...  Como absorver? Como trazer tal informação para o racional? Era o que todos tentavam entender, mesmo assistindo aquela apresentação, exigia muito custo para realmente acreditar nela, como convencer desconhecidos ?

Decidindo ignorar o que acabara de ver nesse instante Frank começou: - São celas, obviamente seremos colocados em uma prisão subterrânea, é isso.

Cruz: - Porra... Mas que porra... Preciso tomar alguma coisa, me dá alguma coisa pra beber Veronica, por favor... Sério.- E se debulhou em lágrimas.

Sara: - Teremos tempo para nos organizarmos, transmitir um comunicado e fazer com que as pessoas entendam.

Veronica deu sua opinião: -Para que as pessoas acreditem devemos mostrar os dados que reunimos, o vídeo, trocar experiência, como vamos organizar todas essas pessoas? - Levantando para pegar e oferecer uma garrafa de Whisky ao seu colega, mas fazendo menção com que passasse a todos.

Marta matou o jogo: - Fomos e estamos sendo observados, se formos agir tem que ser já, não podemos voltar para a Infestatio... Estão nos observando!

Sara com a face distorcida completou: - Sim, a própria Kaba me procurou, ela sabe que percebemos algo, e isso se deu tão rapidamente, não podemos perder tempo.

- Você se encontrou com ela em pessoa? - Perguntou Veronica. A moça positivou a sentença.

- No dia seguinte a nossa reunião certo? Comigo foi a câmera...

Cruz e Frank se olharem e pensaram na "pesagem" e procedimentos que passaram, assentiram com a cabeça, sem precisar deixar explícito que também tiveram "experiências".

- Sim, com ela em carne e osso com toda a sua presença esmagadora...

Ela explicou como se deu o encontro e Marta questionou se havia algo de "diferente" ou "relevante" do qual pudessem se basear. Sara acessou as gravações de segurança e apresentou o encontro entre as duas. Algo chamou a atenção de todos, o leve toque dos dedos delicados de Kaba no colar que usava com o mesmo símbolo da Companhia.

Parecia algo valioso, não de maneira monetária ou sentimental, mas algo essencial, algo cabal.
Sara isolou tal símbolo e disparou de maneira geral uma busca na internet, os resultados eram um tanto quanto desencontrados mas a maioria ( e os mais precisos) apontavam para uma imagem de adoração, de cunho religioso, sem origem aparente mas praticado por diversas civilizações em diversos pontos espalhados no globo sem conexão alguma entre eles, de como foi pregado, como a informação viajou tão longe sem os devidos meios de comunicação, a participação em livros de história era de todo suprimida.

Civilizações como Maia, Khmer,Rapa Nui, Harappa, Olmecas entre outras adoravam, temiam ou cultuavam tal símbolo.  Não funcionava como nos filmes, uma simples definição do problema norteando os carentes de informação. Mas a pesquisa em si tinha uma constante... Uma constante aterrorizadora.

Todo o misticismo, toda a prática, toda a religiosidade, toda a crendice, lenda, costumes, ditados indicava o seguinte:

Deusa da Pestilência.

Deusa das Pragas.

Deusa da Morte.

Doença.

Sofrimento.

Desamparo.

Deusa dos Ratos.

O ícone, em pinturas rupestres, tablaturas, estátuas, papiros era sempre de um corpo feminino esguio, no que havia de mais detalhado, uma silhueta de traços finos.  As versões eram múltiplas, montada em um rato gigante, com asas de inseto, com patas de aracnídeo, dependia da região e século.

Diversas associações e ligações históricas foram feitas como A Praga de Justiniano, A Peste Negra, A Grande Praga de Londres, Grande Peste em Marselha, Praga de Moscou, Terceira Pandemia entre outros.

A esperança era uma peça cilíndrica esperando o momento de se encaixar em um quebra-cabeça exclusivamente retangular. Tinha tanta força quanto um palito de fósforo úmido esperando o momento de incendiar um oceano inteiro.

Cinco pessoas, desnutridas, desacreditadas, desmotivadas e cansadas contra um ser sagrado, uma deidade, com todas as letras, Kaba,a Propagadora do Fim.

Cruz, já embriagado ironizou : - JÁ SEI! Vamos matar todos esses bichos e Essa Mulher com um inseticida, conheço a marca perfeita!

Todos deram ao menos um sorriso amarelo, não pela piada mas sim pela atitude do colega em desespero.

De link em link, fórum em fórum, Sara foi descendo as camadas anônimas e profundas da internet, "A internet além da internet". Chegaram a um pequeno grupo de fanáticos como aquelas pessoas que pactuam em qualquer situação a ideia do "fim do mundo" 1999/2000/2012/Vinda de um novo Papa/Asteroide/Estrela Cadente/Alinhamento planetário, parecia tão idiota quanto... 

A "Contritio".

Já que tudo estava fodido, não viram empecilhos nessa empreitada, combinaram próximo a um complexo de moradias populares que nunca foi a frente então eram abandonadas . Eles com dados relevantes, o grupo acolhedor com uma possível solução. Se prepararam e se acomodaram no carro e esperaram Marta dar a partida, encaravam as ruas melancólicas com grande pesar enquanto a imaginação borbulhava de maneira negativa. 

Exceto cruz, que estava tão alterado, mas tão alterado que a única preocupação que sua mente permitia exercer era não errar (ainda que cantada "mentalmente") a letra de Disturbed - I'm Alive.

O que seria um silêncio constrangedor, foi dominado pelo guerreiro que cantava e interpretava a música isolada em seu fone de ouvido, dando direito a guitarra imaginária, bateria flutuante, maestria com as mãos e um leve sotaque na letra...

Precisavam se mover naquele mesmíssimo dia, não haveria outra chance, provavelmente seriam "silenciados" antes que pudessem arquitetar qualquer tipo de investida ou maior comoção na vizinhança.  Seu Nêmesis estava bem adiantado, dificilmente seriam capazes de contornar uma Mulher como Kaba. Apostariam no tudo ou nada.

Dificilmente, se colocado de maneira extremamente humilde, seria impossível enganar uma Mulher como a Kaba.

A verdade é que se deparariam com algo parecido a campos de concentração, algo arcaico e carregado de péssimas memórias , exatamente como isso, algo inimaginável nos tempos modernos, algo que a muito ficou para trás...

Prisões subterrâneas para conter boa parte da raça humana, qual seria o intuito de nos encarcerar eu não sabia dizer, mas de certa maneira eu possuía um leve palpite, não queria fomentá-lo mas sabia que deveria expô-lo, algo que deveríamos nos preparar, eram elas duas suposições.

Primeira, seríamos como escravos para novas espécies ou velhas só que mutadas.

Segundo, seríamos como alimento para novas espécies ou velhas só que mutadas.

De qualquer jeito estaríamos fodidos, por completo.

Escravizada ou Devorada?

Faltando quatro quadras para o destino, Marta teve que desviar e frear por conta de uma criança que quase fora atropelada por nós. Seu corpo caiu inerte na calçada, de fato não sabíamos se havia se acidentado ou não, ela desceu desesperada para acudir o pequeno. Ao chegar bem perto cambaleou e caiu dura, assim que saímos do carro para averiguar a situação fomos impedidos por homens inteiramente trajados de preto.
 Frank derrubou dois deles usando apenas a palma de suas mãos bem direcionadas no pescoço e nuca antes de ser nocauteado, Frank dormia. 
Sara ficou dura no banco em que se encontrava.
Eu consegui morder o braço do captor que me segurava, pisar em seu pé e empurrá-lo de lado, assim que me livrei comecei a correr...

A última coisa que me lembro foi uma estocada, uma picada bruta na altura da panturrilha esquerda... Apesar de ter sido atingida na perna, caí aterrissando com o busto no chão de terra, lembro de abrir a boca pra respirar melhor e acabei tragando a poeira alaranjada do solo, incapaz de me mover e tudo ficou escuro.

Algo como uma bolsinha... Não era uma bolsa... Parecia algo escorrido e sem vida, me fez lembrar de uma toupeira e ri sozinha. Recobrei a consciência mas a visão era turva, embaçada e péssima. Tentei entender o que era aquilo...  
Eram bolas! SIM! BOLAS!

Já não bastava a situação ser ruim o suficiente acordei com um par de testículos com distância de três centímetros da minha testa... Apesar de furiosa, por conta de ser e meio que ainda se encontrar drogada uma parte de mim achou aquilo muito hilário. "ha-ha a Bela adormecida é acordada com um beijo, eu com um par de bolas, muito bom, muito engraçado ha-ha" ironicamente em minha mente.

Estávamos nós cinco pelados em uma sala sem nada em volta, apenas o chão de tapume totalmente branco.

Assim que dei por mim e me levantei a porta se destrancou, uma mulher que possuía uma franja rente as sobrancelhas veio se desculpando e me oferecendo as mudas de roupas que trajava antes de serem arrancadas de mim.

-Foi necessário, tínhamos que ter certeza de quem vocês eram, sabe?

Apesar de toda a minha indignação, eu compreendi por completo, em tão pouco tempo, a Infestatio tomou consciência que estávamos cutucando por aí, quem garantiria que não fossemos agentes da empresa para conter qualquer tipo de resistência?

- Sim, eu entendo... O Frank não vai gostar nada disso, detesta ser tocado. (Um comentário idiota proveniente de uma consciência ainda alterada).

- É assim que agem, aqueles prestes a se envolver em uma guerra. Estando você pronta ou não.
Disse uma voz distante no corredor.

Viemos a conhecer a Contritio, que talvez a luz no fim do túnel.

Poderiam não ser responsável pela solução, mas absolutamente eram responsáveis pelo último suspiro da humanidade.




7 comentários:

  1. O que é aquele treco branco no meio da página?

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  2. Qual é a do espaço branco?
    E nossa muito boa essa serie você devia investir na carreira de escritor Thiago.

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  3. Essa série que você ta escrevendo é ótima, Tiago! Só tenho elogios.

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  4. Fico mais ansiosa a cada capítulo

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  5. Muito boa a parte branca deve simbolizar o lugar onde eles estão.

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  6. O narrador é a personagem Verônica ou é em terceira pessoa? Me parece confuso

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